MENINO LOURO

Gritos eclodem de uma pequenina casa,
Um chalezinho,
Caído, descolorido.
Destoante do bairro nobre.
Sacos de lixo, chutados para o ar,
Menino revolto, xinga palavrões
De companhia 
O abandono e a miséria!
Mais uma vez na casa da tragédia,
Confusão se aninha e não vai embora.
Vizinhos fecham janelas,
Mais ainda, fecham corações.
Repetem em coro, injuriados, 
Nesta casa não tem jeito!
Do alto do monte vejo a cena,
Junto a eles, uma menina pequena,
Uma mãe que esbraveja e um
Vira lata que late.

Que foi menino louro dos
Cabelos lisos encantadores?
Porque tremes de revolta e medo,
Tenho aqui uma palavra, 
Um abraço, um aconchego.
Surpreso?
Ninguém, te fita,
Ninguém te escuta?

O tempo passa,
A noite se aproxima…
História da mãe, 
Da menina pequena,
Do menino louro,
Do Conselho Tutelar que não chega,
Do Ação Rua que se apresenta,
E da mãe intolerante, que a ajuda não aceita.
É parece que o coro se repete:.
Pra esta casa – esta família, não há jeito! 

É simples assim, cantilena antiga:
Mamãe teve um filho bonito,
Lhe arrancaram dos braços,
Ameaçaram sua vida,
Lhe tiraram o tino;
Jogada, abandonada,
Jurou nunca mais trazê-lo ao regaço..
Vovó velhinha ficou com o fardo,
Mais de 10 anos se passaram,
Hoje não tem comida, não tem companhia.
Todos precisam de acompanhamento, remédio e terapia.

Resultado da visita:
Avó tem a guarda garantida,
A mãe recusa qualquer compromisso,
Não toca no filho nem por obrigação,
Exige que o Estado assuma 
Tratamento e educação.
Bem, nada a fazer se o menino 
Da casa da mãe fugir,
Pois tem o tio do chalé,
Que não o deixa ali dormir.
A mãe vende jornal na esquina,
Tem que descansar,
3 horas da madrugada tem que levantar,
E claro, não há como a questionar! 

E o menino?
Ninguém poderá abrigar,
O caso o juiz tem que determinar!
Isto, se a mãe no Conselho a história contar.
E a guarda pedir com verba para lhe assistir.

Todos calam.
O menino revida, grita e esperneia, 
PARA ABRIGO, CLÍNICA EU NÃO VOLTO, NÂO!
SE ME LEVAR PRA LÁ, FUJO OUTRA VEZ!
E soluça emocionado, meio desbaratado;
– Só quero ficar com minha família!

Todos dão as costas desesperados,
Mais um caso sem definição,
Joga-se para a frente a situação!

Bem, longe dali,
Alguém busca a Deus em oração,
E em nome de Jesus,
Agradece o milagre e a solução.

Não sei explicar como ou porquê,
Ao me despedir afirmei:
– Veja, mãe, este menino,
Olhei em seus olhos e o conheci.
Um dia vai te orgulhar,
Do grande homem que vai se tornar.
Vai ser teu amparo, teu forte abraço,
Seu bom coração vai oferecer 
Sombra e proteção para quem
Por liberdade e vida clamar!

A mãe surpresa e pela primeira vez 
Aceita abraçar a filha e o filho,
Cada um de um lado do peito.
Num emocionado abraço 
Cheio de afeto e aconchego,
Prece sincera chega ao céu!

E o louro menino,
Quase aceitando sua partida,
Sem destino, sem deriva,
Num último momento confessa,
Vim porque queria tanto
Comemorar uma festa:
– Tia, podes me dar de aniversário,
Um bolo com recheio,
De merengue branco
Bonito, com meu nome escrito?
Atônita, respondi:
– São quase 10h da noite,
Não sei bem o que fazer,
Vou tentar, 
Mas nada posso prometer.

Saí, 
Clamando sabedoria, 
Entro em minha casa,
Me surpreendo, que vitória!
Encontro
O nome MOISÉS 
Num livro de história!

Volto do mercado 
Com caixa surpresa,
Pra mais gente tem presente:
Flor pra mãe,
Livro pra mana,
Livro pro mano,
Todos se presenteiam,
Bolo recheado de glacê branco,
Guaraná, festa e muita alegria!

E o nome MOISÉS?
Do glacê do bolo,
Saltou para as páginas de um livro.
Era o bálsamo para o coração ferido.
A escravidão, a pobreza,
O desatino, a perseguição,
Por tantas águas andou o menino,
Mas coube a Deus, o milagre,
Trazer de volta 
Para mãe lhe dar o ensino!

Chora mãe, 
Chora menina, 
Chora menino.
Riem de emoção,
Extravasam libertação!
Quem pode entender?

Diria o salmista:

“Deus atenderá à oração do desamparado, 
E não o desprezará. 
Isto se escreverá para a geração futura; 
e o povo que se criar ao SENHOR, louvará!”. 

Sandra Mara Kindlein Penno
Porto Alegre, 25 de junho de 2013.

(Inspirada pela vida dos meninos louros, morenos,ruivos, índios e negros que tenho o grande privilégio de encontrar em minha cidade, que enriquecem de emoção e alegria a minha vida. É um hino de admiração pela força e resiliência das famílias que sofrem e buscam superação em suas histórias. É um cântico de pura gratidão pela bondade e sempre providência de Deus. Grata pela intercessão dos irmãos, pela sabedoria e instrução das Escrituras Sagradas, neste poema especialmente, pela promessa contida em Salmos 102:18).